Empreendedorismo · Inspiração

Caminhos de Pedra, empreendedorismo e encantamento

Acabamos de chegar de uma viagem ao Rio Grande do Sul (eu e o Rico) e mais do que buscar o merecido escapismo do período de férias, fomos ao encontro de resgatar um pouco da história da imigração italiana, conhecer os roteiros do vinho, fotografar as paisagens rurais e prestigiar mais um estado do nosso país.

Nosso destino foi conhecer as Serras Gaúchas e pesquisando sobre os atrativos de Bento Gonçalves, me deparei com recomendações para conhecer o roteiro Caminhos de Pedra – um passeio que prometia reviver a história de como foi a vinda dos primeiros imigrantes italianos em 1875.

Uma sugestão de entretenimento, na qual acredito, que para a maioria das pessoas, não seja muito interessante, mas para nosso estilo de viagem, a proposta de visitar o caminho era muito sedutora e imperdível.

Separamos então o primeiro dia para este trajeto. Alugamos um carro e com mapa na mão, fomos fazendo as pausas em cada uma das propriedades, que juntas formam esta experiência de encantamento e um dos mais especiais aprendizados sobre empreendedorismo, na qual pude vivenciar.

No acesso, pouco a pouco, a paisagem urbana de Bento, vai sendo substituída por uma estradinha bucólica, formada por casas camponesas de pedras basálticas, construídas pelas famílias italianas no início do século. Cada uma representa uma história de conquista, de batalhas e de muito trabalho. Chega a emocionar ver de perto as dificuldades que este povo encontrou e como conseguiram prosperar e gerar riqueza vivendo exclusivamente da terra.

Percorrer este caminho nos promoveu momentos de muita nostalgia e autoconhecimento, pois cada história revelava também um pouco da nossa cultura, entendendo hábitos e costumes familiares que nortearam nossa educação, afinal meus tataravós (família Matielo) e os antepassados de meu marido (família Pavani), também vieram da Itália motivados pela esperança de aqui encontrar prosperidade.

Nossa primeira pausa foi na Casa de Doces Predebon e embora tivesse fechada, pudemos parar embaixo de um parreiral para observar uma exuberante cachoeira que despenca do vale do rio Buratti.

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Primeira paisagem, ótimo presságio!

Seguindo as curvas da estradinha, o tempo presente divide a paisagem com o passado: casarões reinam o cenário rural com linhas, cores e texturas que criam uma atmosfera nada tropical e sim desenham um clima europeu, que muito contribui para aflorar mais charme ao local.

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Olha a paleta de cores desta paisagem!

Paramos para fotografar o restaurante Casa Angelo. A moradia foi construída em 1889 e, pelo que consta como referência, o proprietário veio de uma província de Treviso, mesma região que vieram meus familiares. O restaurante passou a funcionar em 2015, mas esta casa, de propriedade da família Righesso foi a primeira a ser restaurada para início das visitações turísticas em 1992.

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Simplesmente apaixonante!

A seguir, nos deparamos com outro restaurante: O Nona Ludia, um casarão construído também em 1880 e do lado dele temos a famosa árvore de Umbu que serviu de abrigo para as famílias que chegaram em 1875, e que não tendo onde morar se protegiam nestas árvores até que pudessem construir seus lares.

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Fachada do Nona Ludia (estava fechado, pois era uma terça-feira)
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Imagina quantas histórias e sonhos esta árvore abrigou!

O próximo ponto que visitamos foi a Casa do Tomate (Il Cantucicio del Pomodoro e Della Gasosa) e o Ristorante Pomodoro. Aqui temos um empreendimento voltado para produção de molhos de tomate e outros derivados que incluem cosméticos e até mesmo cerveja artesanal de tomate. Esta agroindústria também produz uma espécie de refrigerante chamado “gasosinha”. Em épocas remotas (onde não se tinha aplicativos como o  Tinder), este refresco era usado pelos rapazes para cortejar suas pretendentes. O ritual era ir aos bailes e oferecer a gasosinha para a moça pretendida: se ela aceitasse a oferta, era sinal de reciprocidade (em alguns casos depois findavam-se até em casamento), mas se o moço não agradava a aspirante, ela simplesmente dizia que não estava com sede – um jeitinho bem educado de dizer “você não!”.

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Varejo da Casa do Tomate, aqui pode-se fazer degustação dos produtos, incluindo a gasosinha!

Outro ponto de parada foi a Casa da Ovelha que é um lugar tão especial que merece um post só para falar dela. E antes de almoçarmos, paramos na Casa de Massas, onde fomos recebidos pela Alice, proprietária do empreendimento. O lugar promove uma experiência de compras incrível. Na área externa, são vários cantinhos onde você pode fotografar ou simplesmente fazer uma pausa para apreciar a vista, já no varejo você pode comprar ou simplesmente degustar os produtos caseiros típicos da região, produzidos ali artesanalmente (grostoli, crostatas e outros deleites da culinária italiana).

O casarão que abriga a Casa de Massas foi originalmente construído em 1910 na cidade de Farroupilha e depois desmontado e reconstruído no Caminho de Pedras, integrando o acervo das construções rústicas.

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Arquitetura muito singular
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Degustação para acolher o turista na Casa das Massas

Na hora do almoço escolhemos viver nossa experiência gastronômica no espaço Casa Vanni, um casarão de madeira, construído em 1935 e restaurado em 1996. No acesso principal temos uma cafeteria super charmosa e no porão de pedra funciona o restaurante. O atendimento é muito receptivo, massas saborosas que parecem ter sido preparadas pela nona. A área externa do espaço também é surpreendente: após o almoço o cliente pode repousar a beira de um riacho observando os patinhos nadando!!!

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Fachada da Casa Vanni
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Um charme esta parede!
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Nosso almoço: Non sono mai stata così felice!!!
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Área externa do restaurante
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Pausa para a “sesta”

Antes de fechar esta primeira parte do post é curioso colocar que as casas que despertaram o potencial turístico do roteiro Caminhos de Pedra, um dia já foram motivo de vergonha das famílias, pois as construções de pedra eram no passado sinal de penúria e causavam um sentimento de inferioridade, a ponto de que algumas chegaram a ser rebocadas, abandonadas e outras demolidas.

Quem teve a iniciativa de acreditar que este singelo lugar poderia atrair visitantes de todo país, foi o Sr. Tarcísio Vasco Michelon, um engenheiro mecânico e empresário do segmento hoteleiro, que vislumbrava o potencial turístico de Bento Gonçalves.

Segundo uma entrevista que li, ele demorou um ano e meio para convencer o primeiro agricultor sobre as visitas turísticas e mesmo assim, este desistiu. Foram várias tentativas de prosseguir com este projeto e muita perseverança para que as famílias compreendessem que o turismo poderia complementar a renda sem deixar de lado as atividades agrícolas.

Nos depoimentos do Sr. Tarcisio, observa-se que ele foi muito audacioso, pois com recursos financeiros de seu empreendimento hoteleiro ajudou a restaurar as primeiras casas, evidenciando o acervo arquitetônico que viria tornar-se posteriormente um grande atrativo. As primeiras visitas ocorrem em 1992 e hoje são mais de 60.000 turistas que visitam o local por ano.

Todo este esforço, rendeu ao roteiro atribuições de um museu vivo, ao ar livre, concentrando um valioso repertório da cultura italiana. O Sebrae-RS (eu trabalho no Sebrae-SP), também teve uma relevante participação na construção do Caminhos de Pedra, pois ajudou a fundar uma associação que se mantém até hoje e também atuou no desenvolvimento da gestão dos empreendimentos. Isto eu vim a ter conhecimento depois que voltei da viagem, o que me deixou ainda mais engajada a compreender o histórico e as boas práticas deste projeto.

Enfim, além de renovar o olhar, o Caminhos de Pedra, lhe proporciona a oportunidade de vivenciar a história de uma comunidade que se uniu a princípio com o objetivo de gerar renda, mas que hoje atua na preservação da cultura ítalo-brasileira, na conservação dos recursos naturais/arquitetônicos e ainda oferece interação social num ambiente repleto de amenidades.

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Que presente de Deus conhecer este lugar!

Tenho mais coisas boas para falar deste local, mas vai ficar para o próximo post! Ainda vou falar da Casa da Ovelha, Casa da Tecelagem, Casa do Erva Mate e a incrível história da Cantina Strapazzon.

E você, já visitou locais que além do passeio te geraram aprendizado e inspiração? Compartilhe comigo!

*todas as fotos do post são de minha autoria.

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