Empreendedorismo

E se a Bel Pesce editasse seu currículo?

Quem é empreendedor, ou respira empreendedorismo, nos últimos dias tem acompanhado os episódios que polemizaram a imagem da empreendedora Bel Pesce. Eu não vou entrar no mérito de colocar aqui minha opinião sobre as atitudes e consequências, pois inclusive aqui no blog já cheguei fazer referências positivas sobre o livro da Menina do Vale. Na verdade, vou “aproveitar” do acontecimento para escrever alguns aprendizados.

Um dos pontos que criou esta repercussão, está sendo que a história extraordinária da carreira de Bel Besce foi “floreada” e demasiada. Digamos que se ela tivesse escrevendo minha biografia, ela provavelmente iria dizer o seguinte sobre minha carreira: Luciani com apenas 13 anos de idade, ainda no ensino médio, foi convidada a trabalhar na maior empresa de telecomunicações do Estado de São Paulo. Com apenas 16 anos já ingressava no sistema financeiro, num dos maiores bancos públicos. Formou-se em Processamento de Dados e nesta época, já trabalhava em um encadeamento de distribuição do segmento de petróleo e derivados. Aos 18 já lecionava na área de tecnologia de informações. Aos 21 já liderava uma equipe de profissionais de TI que desenvolviam publicações na área de informática. Aos 23 fundou sua própria empresa e resolveu se aventurar pelo empreendedorismo. Aos 25 se recolocou no mercado de trabalho como executiva de marketing em uma das divisões da empresa líder do mercado de saúde suplementar do país. Atualmente, trabalha em uma das maiores instituições de empreendedorismo do mundo. É formada em Administração, especialista em Comunicação Empresarial e “Master Businness in Administration” em Marketing pela mais renomada instituição de negócios do Brasil.

Imagina esta descrição acima contada em livros, palestras e entrevistas??? Provavelmente eu teria mais seguidores aqui no blog e umas casas decimais adicionais na conta corrente.

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O sucesso nem sempre é o que parece

Chega a ser engraçado e ao mesmo tempo constrangedor fazer este exercício de se autopromover. Nada do que está escrito acima foi inventado, mas descreve de forma ostentativa minha trajetória profissional, ao ponto de se exceder, do que de fato foi minha singela história de vida.

A verdade, a vida real com suas imperfeições retratam a seguinte história: Comecei trabalhar com 13 anos porque tinha que ajudar em casa, fui ser “guardinha mirim” num projeto social da Prefeitura Municipal da minha cidade (na época menor de 18 anos podia trabalhar). Eu era uma espécie de menor aprendiz, na qual as empresas incentivadoras tinham como missão ajudar a ingressar no mercado de trabalho e contribuir com nossa formação. Nesta época, eu não tinha dinheiro nem pra comprar uma bola de sorvete na Chamonix (sorveteria que ficava do lado da empresa), pois tudo que eu ganhava era para pagar meu curso técnico. Aos 18 anos, meus estágios acabaram, eu precisava entrar no mercado de trabalho com carteira de assinada para conseguir fazer uma faculdade. Consegui uma vaga num distribuidor de óleos lubrificantes. Entre minhas tarefas eu tinha que fazer cobrança dos clientes inadimplentes (o que não era nada agradável). Eu queria mesmo era trabalhar com sistemas de informação e logo fui agraciada pela vida e consegui começar dar aulas numa escola de informática. Fui promovida a coordenadora e realmente tive a oportunidade de ter meu primeiro cargo de liderança com 21 anos. Alegria que durou pouco, um ano depois esta empresa teve uma crise financeira e ética, fiquei sem receber salário por quatro meses e simplesmente desisti de ser enganada. Com 23 anos sem salário, devendo 4 mensalidades na faculdade, virei empreendedora por necessidade, junto com uma prima. Abrimos uma microempresa que prestava serviços de comunicação e vivemos por quatro anos a dura realidade de empreender no Brasil. Novamente, fui abençoada, e tive oportunidade de voltar para o mercado de trabalho numa operadora de saúde suplementar. Comecei como assistente de marketing e cheguei até o cargo de gerente. Muito aprendizado e gratidão tenho por esta fase da vida. Hoje trabalho com empreendedorismo, numa empresa que tem isto em sua missão e amo o que eu faço! Minha formação foi em uma faculdade que tem aqui em São João da Boa Vista. Entrei no curso de Administração aos 21 anos, e não porque eu queria fazer ADM, mas porque era o curso mais acessível. Fiz uma pós-graduação e estou concluindo um MBA em Marketing numa faculdade de renome, mas que “cá entre nós” não passa de uma grife de diplomas.

Tenho maior orgulho da minha história, conheci pessoas e empresas incríveis, me apaixonei pelas ciências da administração, pelo empreendedorismo, pelas lições de marketing e pelos livros.

Aprendi que para ter o sucesso primeiro você precisa saber lidar humildemente com os contratempos. Neste mundo de gente prodígio, mentes brilhantes e de carreiras meteóricas contadas pela revista Você S/A e pelos “fodões” das redes sociais não existe o “felizes para sempre”, pois o caminho do sucesso não é uma reta, mas sim uma subida ingrime, repleta de obstáculos.

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*imagem localizada no Google – desconheço a fonte.

Estas pessoas de rótulos incríveis e egos inflados são como as fotografias de um álbum de família que registram e evidenciam apenas os bons momentos. São mestres em falar que você tem que acreditar nos seus sonhos, ter metas arrojadas, sair da sua zona de conforto e ter “sacadas” de sucesso. Os percalços da vida, estas pessoas escondem embaixo das fronhas dos travesseiros e no dia a dia se projetam como produtos 100% perfeitos que irão ajudar você a realizar seu projeto de vida, a construir um legado!

De forma nenhuma minha intenção aqui é ajudar aumentar o caldo das discussões, mas acredito que seja uma oportunidade de reflexão, pois muitas vezes buscamos estas referências de sucesso e passamos a questionar nossa capacidade e escolhas.

O que aprendemos com este buzz recente é que estas pessoas, por mais que de fato influenciam uma legião de seguidores, não estão imune ao erro, ao fracasso em seus projetos, aos efeitos da superexposição.

Realmente, de perto todos nós temos nossas imperfeições, “sejamos” no mínimo, autênticos e humildes para contar nossa verdadeira história!

Boa semana!

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